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O custo da saúde nos sistemas público e privado. Precisamos mesmo ter dois mundos tão diferentes?

Mundos diferentes na saúde: quem gasta mais e recebe menos?

O terceiro e último dia do Global Forum Fronteiras da Saúde foi dedicado à discussão sobre custos e financiamento da saúde brasileira. O primeiro painel se debruçou sobre o custo da saúde nos sistemas público e privado e provocou com a seguinte pergunta os convidados do dia: “precisamos mesmo ter dois mundos tão diferentes?”.

Para começar a discussão, a moderadora Guta Nascimento apresentou números da saúde e lembrou que estamos falando de seres humanos lá na ponta, que estão fragilizados e é cruel termos realidades tão distintas no momento mais difícil do ser humano, que é o adoecimento. No mundo todo, e esses são dados da OMS, 51% dos gastos com saúde são pagos pelos governos, no Brasil 8% do PIB nacional é destinado a esses investimentos, divididos em 4,4% dentro do sistema suplementar e 3,8% no setor público. Entretanto, usam esses 3,8% cerca de 80% dos brasileiros que dependem totalmente do SUS.

 

O primeiro a falar foi o Dr. Carmino Antonio de Souza, professor da Unicamp e que atuou como secretário de saúde por dois anos, no Estado de São Paulo e outros oito anos na prefeitura de Campinas. Para ele, falta dinheiro na saúde, mas lembra que “dinheiro é meio e não fim”. Para ele, não importa se é colocado muito ou pouco investimento na saúde, o problema é como é a gestão desse recurso.

“Duvido que haja um município que coloque só 15% do orçamento na saúde, como é determinado. Há municípios colocando até 40%, o que compromete a administração e a gestão de outros problemas da prefeitura!”, revela o professor. “O sistema de financiamento é antigo e superado”.

 

Para Bruno Sobral de Carvalho, secretário executivo da confederação Nacional de Saúde (CNS), o gasto per capita brasileiro é parecido com o inglês, mas é fato que lá há muito mais dinheiro e onde todo mundo tem mais ou menos a mesma fatia. No Brasil, é muito grande a diferença entre o gasto público e o privado. “Mas não se combate a desigualdade piorando o que funciona”, reclama.

 

Ele também acrescenta ao problema do financiamento o fato de que há muito hospitais no Brasil, a maioria sem escala e sem eficiência, o que só onera a saúde.

Há, ainda, a questão das diferenças dentro do próprio setor público, pela diferença entre as regiões brasileiras, acrescenta Eduardo Calderari, Vice-Presidente da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa). Segundo ele “o SUS vem melhorando muito, mas a inequidade começa porque o PIB é menor. Daí precisamos entender onde estão os problemas e cobrar como cidadãos”.

 

Outra questão trazida por Bruno é que a medicina foi se tornando cada vez mais cara. “Há 150 anos era muito barato tratar doença cardíaca, mas o resultado era ruim. Na medida que a medicina evolui, ela fica mais cara, mas também vai salvando mais pessoas”.

 

E por isso ele bate na tecla de conhecer os resultados. O problema de gastar menos no SUS é que, de fato, os resultados são piores e é preciso conhecer os resultados dos vários sistemas no Brasil para poder falar de custos de forma efetiva. “Não dar condições de detectar precocemente câncer de mama também é desperdício, porque vai gerar mais custos lá na frente”, inclui Bruno.

 

Para Eduardo, o problema não se resolverá se não analisarmos dados e performances e inclui que inovação traz benefícios claros no final, que se traduzirão em valor. Não podemos nos esquecer da boa ciência e das decisões baseadas em evidências, além de tomar cuidado com mecanismos de incorporação.

Dr. Carmino citou o desperdício que aumenta os custos e, como exemplo, citou a forma como é paga a transfusão de sangue no Brasil, por procedimento feito, e que acaba estimulando as transfusões. “Temos que contratualizar e dar responsabilidade para o gestor de saúde sobre o que fazer”.

 

Informação e transparência

 

Eduardo Calderari concorda que informar o paciente sobre o custo do tratamento pode ajudar o processo e, principalmente, evitar desperdício. E para Bruno, quem tem um seguro não se importa com o que é pedido pelo médico: “a partir do momento que se criou a co-participação o consumidor começou a questionar o médico sobre a terapêutica, mas não é tudo que é possível ser entendido pelo paciente”.

Quanto mais complexo o procedimento, menos útil é para o consumidor saber antes como são compostos os custos, mas entender depois os valores que foram consumidos no seu tratamento é uma questão de cidadania.

 

“Toda atividade econômica gera desperdício”, acrescenta Bruno. “Uma crise de governança gera desperdício, assim como um prefeito construir um hospital de 10 leitos, e um paciente fazer milhares de exames no sistema privado e repetir esses exames ao ser encaminhado para o SUS”.

 

O paciente tem uma voz importante nesse processo. A pandemia fez com que a população se informasse mais e participasse do debate. Isso não pode ser perdido daqui pra frente.

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